sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Absortas sem sentido!




Corpo pousado sobre a berma da estrada, remexido nas asas do tempo.
Estancado! Morta e mole na brisa apodrecida!
Mais uma vez, viajei nos sonhos de oportunidade;
Mais uma vez, pedra fortificada no caminho ficou;
O seu medo não a deixa abrir os portões blindados, nem penetrar no espaço para outra época.
O silêncio era mais antigo. Silêncio de outras eras de dor!
E, as coisas eram custosamente visíveis á luz decrepita.
Ao simples impulso da voz, vi o alojamento na desordem,
Abandonei as armas interrompidas pelo pânico e atravessei uma das grades de ferro da alma.

Apaixonavam-me ventos trazidos do horizonte,
Embalaram-me canções de tom baixo e rouco de uma voz indefinida!
Espelhos de alma a corpo inteiro, infiéis ao tempo dos cometas.

Passei momentos de inocência e sabedoria de outras eras,
Ficavam a palpitar nas coisas que, secretamente desejavam fazer.
Ficou por ali, os sorrisos, os sonhos, as palavras, os gestos!
Estagnaram simplesmente no tempo!
E, aqui estou eu nesta madrugada que não lembra a ninguém,
Onde a precariedade do que somos dá lugar ao murmúrio eterno!
De olhos tristes, os lábios pálidos gélidos pela brisa, a mão pensativa que ia dizendo "adeuses" a ninguém.

Cega ambulante, que involuntariamente ia recitando versos de poetas esquecidos que ninguém valoriza.
Apenas a menina deitada sobre o manto azul do céu,
Ouvindo o seu próprio ruído humano e suspiros de felina por detrás das paredes fortificadas invencíveis e inegáveis.

Várias vezes pensei que viriam revoadas sucessivas do horizonte do mar.
Várias vezes pensei ver a poeira voando o dia todo em forma de círculos lentos,
Destroçando e evitando correntes de água suja.
(Pensei eu!)
Que cumpria-se assim, sem margem para erro, sem pausa, sem fechar a porta a um novo capitulo,
Entregava as tréguas daquele momento sagrado, onde as vozes extinguiam-se, sem respirar!
Apenas ouvia aquele batimento cardíaco assemelhado ao de uma criança que se ia tornando mais profundo à medida que a maré subia.
Até a cúpula da noite calma aquietava o vento, transbordando toda aquela emoção à face da terra flutuada na água lunar!

Suplico sempre por um rumo diferente,
Mas descubro, da forma mais dolorosa, que ninguém alimenta ilusões enquanto não se apagam as luzes.
Não deveria ter apagado a minha quando pediste!
Observar novamente os sonhos de naufraga solitária tornou-me mais mediativa e mais sombria.
Deixei de dar atenção para aquilo que me diziam,
Comecei a dormir no chão, vestida, sem almofada!
Renunciei à procura, que outrora era insaciável, da descoberta precorce da identidade.

Inquietar uma ilusão, não seria o caminho.
As cifras do meu destino estão escritas algures, perdidas entre as marés mais ferozes!
Não posso, embora fosse o meu desejo,
Desenhar o meu percurso em pequenos pedaços de papel escrito,
Suportando tantos sonhos que não dependem só de mim!
Acabam por se juntar, apenas aos suspiros reprimidos de ilusões impossíveis.
Sem as tocar! E tão efémeras e tão inantingivéis!
Aprendo a confortar-me com o destino rafeiro.
Talvez um, que não seja meu!

Quero guardar, é certo!
Queria dar asas à história, mas não basta o meu querer!
Aquela confusão de identidades atingiu o seu auge numa tarde de ventos cumpridos.
Não sabia como comportar-me!
De tanto tempo que o coração ficou fechado ao sentimento de entrega,
Encontrei como forma de alívio, à pressa e com o escudo ainda vestido
Guardar interiormente todas as imagens nocturnas que, por descuido, faziam-me tropeçar por pedras ocultas!
Aos olhos do outro, poderia ser desinteresse e podia consolar-se assim de que fora não mais do que um sonho a noite do cometa.
E a magia de um rosto envelhecendo gradualmente apenas num dos corações.
Não! Não compreendes os porquês de todas aquelas barreiras!
A noite, aquela que me pertence em sossego,
Espero por encontros sem resposta, espio por sinais e canto sem que ninguém me oiça.

Repara como estou triste, sentada naquela escada com lágrima colada na pele clara do meu rosto!
Já não posso com o mundo,
Que a minha vontade era de partir sei lá eu para onde!
Renego-me, apesar de querer partir, à distância em quilómetros.
Pois não é resposta para suportar à magoa!
É impossível mestrar o próprio interior.
Os suspiros regressam à lembrança com as primeiras luzes da noite, assaltando todas as defesas.
No entanto, para ele esse luar já não era verdade.
Para ele, enganaram-o por hábito, mentiram-lhe por medo, que nada era genuíno naquela crise de incerteza que, os poucos, estava a amargar-lhe a glória e tirava-lhe a antiga vontade de sonhar!
Coração, nunca foi essa a minha vontade!
Sempre acreditei que poderia ser real a utopia, que era capaz de ouvir ao longe, o mar longínquo, o ruído das rosas que se abriam ao amanhecer, o suspiro sem querer!
Pressentindo-o com um instinto bravio a iminência da tarde que regressava sempre à lembrança.
Nessa tarde, ao contrário do que esperávamos!
Decorreram muitas horas de prudência, de averiguação sigilosa, de convivência secreta que não partilhava por medo de quebrar-me em pedaços cruelmente pequenos.
Optei por jogar na defesa de mim mesma e, talvez tenha errado ao fazê-lo... Mas sou eu!
As palavras, são mais fáceis de suportar e entendê-las!
Talvez, nesse momento fiquei bloqueada pois não via nas tuas o mesmo que, verdadeiramente as minhas transmitiam.
Como é que para ti, o sol tinha nascido e tinha voltado a nascer sem sequer tropeçar?
Porquê o mesmo calor, ainda que sem mim?
São perguntas que me assombram, que me ferem pelo horror e pela vergonha do meu próprio corpo de mulher.

Novamente, de cara lavada pelo pó da areia, os lábios pintados de vermelho vivo e as duras mãos de menina impáveis sobre o peitoral blindado de falsas medalhas de guerra.
Absorta, sem sentido! Dobrei um dos meus braços servindo-me de almofada.
Adormeci, por instantes, mais só do que nunca,
Embalada pela dança incansável das árvores como corpos fumegantes sobre as luas coloridas, agora senhoras do massacre!
Tentei distinguir-me entre a ferocidade do desejo e a vontade do dever.
E designando, segundo os impulsos da imaginação, tentei restaurar as forças e dissipar o remorso daquelas inquietações prometendo que todas aquelas torturas de amor fossem as últimas em território felino.
Pode parecer cruel, até desumano esta negação ao sentimento.
Mas ninguém para além de mim própria conhece o que é ser torturada (mesmo que inconscientente) por alguém!
É horrível voltar a acreditar ou antecipar um futuro com uma lembrança apenas mágica
Enquanto que, sem reparar, era possível continuar a torturar-me (em pensamento!) órgão por órgão sem me matar ao mesmo tempo que tentava arrastar-me em busca de novas formulas.

Torcida em convulsões, onde o vestígio inspirado pelo amor foi sequestrado no dia em que fechei os olhos para a emoção.
É a minha forma de refúgio, viver sobre esta paisagem sem horizonte de áspero pó lunar, cujo as estrelas sem fundamento doíam na alma desta estranha menina de origem incerta, que a complexidade da sua alma tinha sido um escândalo para alguns fanáticos disfarçados na noite da fortuna.
Quando na realidade, ninguém ouvia o meu ofegar nem as minhas lágrimas solitárias que escorriam contornadas à medida que ia anoitecendo, como que apodrecendo de desgosto.
Aquele desgosto de escassez não era eterno, havia de durar até que as forças de ocupação abandonaram o coração afim de cumprir os termos de desembarque.
Separando todos os momentos numerados e colocando-os em gavetas arrumadas,
Onde essas memórias eram acompanhadas pelo fantasma perdido na tempestade acreditando que consigo levaria todo o paraíso de guerras e a permissão de voos de cometas!

À medida que escrevo todas estas quedas sobre as palavras, as horas passam e torno-me mais tensa e sanguínea do que é natural.
Levanto-me de repente, com alguma dificuldade numa pausa.
Mesmo assim não consigo deixar de observar que em instantes os alicerces do que eram foram abalados com a explosão compacta de todas as armas disparadas ao mesmo tempo.
Uma vez, sem ruído intermédio, sem um lamento. E outra vez, e pronto... Acabou!
A donzela, nem sequer estremeceu.
Ficou apenas uma atmosfera de pólvora no silêncio do mundo.
Ficou apenas ele a salvo para sempre da inquietação.
Foi a minha escolha, renunciar à busca de instantes apenas vi-o a desfilar sobre as chuvas, afastando-me cada vez mais!
E, de olhos propensos ás lágrimas dispus-me a terminar a tinta da caneta nesta história, porque pareceu-me inútil contrariar.

Passo noites sem dormir para não recordar.
A noite tornou-se tão áspera que tremia a ideia de encontrar apenas as pessoas em sonhos!
Quero acreditar que não, para não dar o prazer de matar-me novamente sem direito algum.
Abandonei esta minha inocência prematura, esqueci as mendigadas palavras de amor que quero ouvir!
Senti vergonha do meu estado, repassei os sítios com as mãos amarradas ao coração para que os remendos não se soltassem.
Tento agora, pela primeira vez resistir aos instintos de amante fugaz e ignoro suspiros de outros.
Estou farta de saber que aquela vontade eram ilusões que alimentava para mim mesma,
Que cada salto na minha solidão, cada tropeço da minha respiração aproximavam-me do esquecimento das súplicas por amor.

Pensando bem, todo o mundo não passa de bonecos com mecanismos ocultos e virtudes humanas.
Na realidade, a maioria não sente a intensidade do cometa como eu o sinto!
Alguns ignoram e outra grande parte suplicam aos astrónomos que inventem uma luz brilhante que fosse suficientemente aterrorizante para causar uma vertigem de eternidade.

Não! Eu vejo e intensifico esse momento!
Não o suplico apenas deixo-me perdida para sempre no enigma do eclipse!
Agora, voltarei a fechar-me para o estremecimento,
Voltarei a ser a menina de mim mesma!

DIANA VELOSO

2 comentários:

candeeiro verde disse...

olaaa
gostei muito do teu blog..
tambem tenho um..
http://cadernodaminhavida.blogspot.com
visita e diz me o que achas
o meu mail se quiseres
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bom fim de semana e tudo de bom*****

Paulo Barros Cardoso - P.B.C. disse...

Bonitas palavras :-))